Jamais. Jamais diga que eu te fiz fazer coisa alguma. Apontar descontrole é fácil demais, envergonhar e punir repetidamente é praxe. Ter a mesma previsibilidade de si e impor limites ao que te descontrola é bem diferente. A sorte é que menos coisas te descontrolam, ou não sei a que ponto já teria chegado. Já me disse com um vislumbre, um fantasma passageiro de empatia que devia ser muito difícil mesmo, ver a mim mesma desregulada, instável, errando de uma maneira que eu não imaginava, tendo que me enxergar daquela forma e encarar de frente, seguir perto de quem me lembraria disso como um espelho quebrado. Pedindo por isso. Não sei se faria o mesmo de si ou apenas se retiraria. Ou sei e gostaria de não saber. Não sei se seguirá se respaldando nas minhas palavras e ações. Se segue projetando que falando das minhas mágoas retirei minhas desculpas, se seguirá acusando um delírio fora e se defendendo de incoerências externas reais e imaginárias ao invés de olhar pra dentro.
Jamais. Jamais diga que me tratou e protegeu como amiga nas questões que eu te apontei. Está até hoje gritando as cobranças que sofreu, até as passadas que vivem em ecos no que agora é desabafo, mágoa. Se negando a engolir, como não me permitiu, a falta que motivou a cobrança ou que dois errados não se anulam. Repetindo que meu sarrafo era baixo antes, questionando como eu teria aceitado certas situações. Meu sarrafo foi baixo durante também. E as situações chegam sorrateiras, bem assim. Basta ofender um sentimento. Contrariar demais. Apontar o que não pode. Assim como meus gatilhos podem explodir, imperdoavelmente, mas não se impõem como violência física, arrasando aberta a ferida de que nunca se está segura.
Jamais. Jamais repita que suas relações precisam de um interesse a mais, algum envolvimento emocional. No grau em que isso ocorre, pra mim é o mesmo. Eu também enxergo pessoas, eu também converso. A objetificação que você relata e denuncia faz uma sombra onde você se esconde. O contato do qual você precisa não busca a troca, é pra te assegurar, como sua pílula. Não a saúde, mas alguma garantia, o desejo do outro, alguma sensação de segurança real ou imaginária, não é sobre aquela pessoa ou relação, eu acompanhei os eventos anteriores. Não é porque você teve menos mulheres que seus envolvimentos são mais profundos ou menos vulgares. Não sei com quem você compara ao dizer que sua relação com sexo passa inteiramente por outra via, mas não é comigo. Sua relação com sexo é um tanto infantil e por vezes mais vulgar e artificial do que você é capaz de admitir.
Jamais. Jamais repita que quer todas as conversas difíceis. Que não dava pra passar tempo demais fingindo que não havia algo mais complicado. Que poderia também ouvir mágoas e sentimentos. Tudo volta a se referir a você e refletir na sua mágoa. Se antes era difícil encontrar espaço pras minhas porque eu estava sempre em débito ou cobrando demais, agora não tenho mais o direito. Ou seja, nunca seria minha vez, até que você julgasse satisfeita a redenção frente à sua.
Infelizmente seus braços fortes não sustentam muita coisa que você diz querer (assim, né...), achar necessário, até correto! Sua inflexibilidade se vê por dentro e por fora enquanto você atrofia. Sua instabilidade aponta a que te é causada de fora. Sua necessidade de segurança suplanta sua compreensão. Sua autoimagem não suporta um terço dos rasgos que você exige fazer. Sua necessidade de pagamento justo te faz comprar presentes, mas também exige um quilo de sangue antes de presentear com o direito de sentir também. Não reconhece o terror, a repreensão do que é emoção, o autoritarismo, a violência, o eco do trauma, as ações que tanto condena. Se reconhece, não é pra remediar, mas numa medida de silêncio e distância, para o bem de alguém imaginário, para não machucar ainda mais, quanta nobreza. Seu medo não era de tomar certas medidas ou agir de certa forma, mas de ser visto ou tratado de determinada maneira. Mas, de alguma maneira, busca garantir que seja assim, faz questão de confirmar as próprias narrativas como quem precisa tanto de previsibilidade que garante a tragédia só pra ter estado certo desde o início. Nem todo, mas sempre um. Você não é um aliado. Você se senta em seu sofá interno e vê o programa de domingo, com uma expressão insatisfeita. Mas o problema são os outros. E não recusa que te passem um pano costurado com a pele de alguma. Jamais.
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